Um cidadão de bem – Crônicas da vida real na cidade de São Paulo (Por: Carla Moraes)

Pois bem, você sempre trabalhou e sustentou sua casa, educou seus filhos, sempre foi um cidadão de bem. Finalmente tem um incentivo do governo como IPI zero e resolve comprar um carro. Por muito tempo você se deixou acreditar que ter um carro é sinônimo de conforto e liberdade, principalmente ao ver aquelas lindas propagandas na TV, onde pega seu carro e sai dirigindo por aí pelas ruas da cidade, pelas estradas, por lindas paisagens. Afinal de contas, está cansado de ficar no ponto de ônibus todas as manhãs, depois de 10 minutos de caminhada, e ainda ter que pegar um trem lotado até o trabalho todos os dias.

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Se você comprar esse carro, seu meio de transporte irá parecer como esse. “Toda a estrada livre”

Faz o financiamento com um grande banco e assim parcela sua dívida. Você acha que comprou liberdade e conforto, mas na realidade o que você ganha é uma eterna dependência.

IPVA, seguro e também a dívida que deverá pagar todos os meses. Além disso, terá que todos os meses gastar com combustível, ou seja,  derivados de petróleo. Pois bem a partir desse momento você não está mais trabalhando para seu próprio conforto, está trabalhando para pagar sua dívida a um grande banco e a uma empresa que vende combustível, impostos e tributos. Você acha que ganhou a liberdade, mas você ganhou uma prisão.

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Mas na verdade, o que acontece é isso…

Um carro popular em 2013 custava em média R$830,00 por mês, apenas para manutenção do bem. “Em três anos, dá para comprar outro carro.” Essa é a frase que sintetiza o estudo sobre o custo para se manter um automóvel popular no Brasil, elaborado pela Proteste — Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. Detalhe: o valor considera pagamento à vista, não contabilizando uma eventual prestação de financiamento. A partir dos valores, foi feito um cálculo dos custos nos três primeiros anos de uso, somando impostos (IPVA e licenciamento), seguro (obrigatório e opcional), revisões, combustível e depreciação.

Miniature car on stack of money

E esse ciclo continua, pois você irá trocar de carro nos próximos anos e fazer um novo financiamento no banco e continuar pagando o combustível e os tributos e seguros e impostos.

A partir desse momento também vira um prisioneiro do caótico trânsito das grandes cidades, das ruas já lotadas de carros, dos intermináveis congestionamentos diários. Aí vem o estresse…

Como quebrar essa cadeia?

Você poderia optar pelo transporte público, porém já sabe ele é deficiente e sobrecarregado, subdimensionado e há pouco investimento no setor. O transporte público é subsidiado pelo governo, isso quer dizer que o governo tem que pagar para manter esse sistema com o preço atual, logo esse custo sai do bolso do próprio cidadão. E o governo deveria atender os interesses da população, certo? Porém o transporte público não gera renda, enquanto o seu carro gera lucro diariamente a bancos, postos de gasolina, empresas de manutenção de vias, construtoras, seguradoras, pedágios, estacionamento e também em forma de impostos.

O carro seu causa danos ao pavimento, que por sua vez é consertado por uma grande construtora, que também constrói uma ponte de bilhões de reais, para você poder trafegar com seu carro. Além das empresas de combustível, dos bancos, também fica dependente das construtoras.

gastos-mensais-dos-brasileiros-resultados-da-pesquisa-julho2014-10-1024Principais resultados da pesquisa exclusiva “Como gastam os brasileiros?”, realizada no período de julho de 2014 com internautas das principais regiões metropolitanas do país. Esta pesquisa foi uma parceria entre a eCMetrics/ eCGlobal Solutions e o Mundo do Marketing

Quantas obras de mobilidade urbana estão paradas ou sucateadas pela cidade? Monotrilho, obras do metrô, trem de alta velocidade, terminais de ônibus… Alguns nem saíram do papel, não é mesmo? Porém as grandes empresas e construtoras já pegaram um pedacinho do seu dinheiro para a execução destas obras intermináveis, que se algum dia ficarem prontas, já nascerão subdimensionada…

É uma constatação triste, mas possuir um carro é contribuir para a manutenção de um sistema de transporte falido, insustentável. Veículos individuais sobre rodas, pois raramente levam mais de 1 ou 2 passageiros, ocupando as vias da cidade, poluindo o ar, sustentando um sistema corrupto de grandes empresas.

Pois é, Senhor cidadão de bem, você faz parte dessa máquina desigual e cruel, que de alguma forma contribui para a manutenção do péssimo sistema de transporte público nas grandes cidades.

E pensar que isso começou há anos atrás… e ainda tem gente reclamando dos tradicionais fabricantes de carros estarem vendendo cada vez menos, mas ninguém reclama das novas montadoras estrangeiras que se instalam anualmente no país.

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E foi nesse dia que o “Senhor cidadão de bem” preso num congestionamento de 3 horas numa sexta-feira chuvosa, ainda com 30 parcelas a pagar do seu carro chinês , percebeu que algo estava muito errado e ficou triste… ainda mais por saber que agora tem que trabalhar mais, acordar mais cedo… e ele só quer poder chegar em casa.

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