Ianca Loureiro

Me chamo Ianca Loureiro e tenho 18 anos. Moro na região do Campo Limpo, próximo ao Taboão da Serra e Butantã. Estudo Jornalismo e estou cursando o terceiro semestre.Comecei a ter contato com os pedais naqueles “tico-tico” de plástico. Lembro-me que morava numa ladeira de uma rua sem saída, então meu irmão (mais velho cinco anos) amarrava meu “tico-tico” com uma corda na bicicleta dele e eu girava e rodava como um pêndulo. Pouco tempo depois a mesma bicicleta que me girava e rodava na ladeira se tornou minha bicicleta, mesmo com as rodinhas fazia e desfazia da bicicleta. A garagem da minha casa era plana, porém pequena, então eu ficava fazendo zerinho, ficava tonta, minha mãe falava que eu ia ficar doida girando e girando.

Ianca Loureiro
Ianca Loureiro

Com um tempo depois meu pai resolver tirar uma das rodinhas da bicicleta, e deixou a que eu me apoiava quando ficava girando. Era o meu próprio desafio fazer de tudo pra não virar do lado que não tinha a rodinha, senão eu sabia que eu ia cair. Foi passando os testes de equilíbrio, realizando meus próprios desafios, entre alguns tombos e risadas eu ia me divertindo. Foi então com 5 anos que minha família (pai, mãe e irmão) decidiu que eu tinha que aprender a pedalar sem as rodinhas, e por falta de espaço em casa, me levou pro Parque Villa Lobos. Acho que é por isso que eu tenho grande carinho pelo parque. Lembro-me que na época em que eu ia aos domingos aprender a pedalar, o parque não era tão grande como é hoje e também tinham pequenas áreas para as bicicletas. Havia um terreno com grades de ferro, que hoje é a área do playground e vôlei de areia, que não passavam pessoas e só tinha alguns materiais para construção, então era lá que eu tentava a sorte de aprender a equilibrar na bike. Até hoje sou motivo de risada entre minha família, por aprender a pedalar e me enfiar nas grades e nos materiais de construção do parque. Apesar de ter passado um sufoco na época, hoje é muito bom relembrar as dificuldades e rir de tudo isso.

Sempre gostei de pedalar, mas nunca tive uma bicicleta pra dizer “é minha!”. Com a ida do meu irmão para estudar fora da cidade, dificultou ainda mais o meu contato com as bicicletas. As idas aos parques foram diminuindo, e as bicicletas foram ficando pra último plano. Com o início do projeto previsto pelo prefeito, e as ciclovias ganhando vida por toda a cidade, meu interesse por mobilidade urbana e o uso da bicicleta como transporte foi aumentando. Apesar de sempre estar por dentro das novidades e sempre debater assuntos sobre mobilidade, espaços públicos e cicloativismo, ainda não uso diariamente a bicicleta para me locomover. Isso porque na minha região tem muitas opções de transporte público, então eu acabo preferindo usá-los. Mas sempre que posso e preciso, em dias mais acessíveis, uso a bicicleta. Por não usar muito a bicicleta diariamente, optei por evitar o uso do carro até mesmo nos finais de semana. É raro o dia que decido depender de automóveis para me locomover. Mesmo de dentro dos ônibus é possível perceber como o uso do carro é tão banal, mas o carro ainda assim vai além de ser um bem material responsável por locomoções, ele faz parte da pessoa como uma proteção, escudo nas ruas, até mesmo uma arma.

Ultimamente costumo pedalar com uma Caloi Concorde RT 10 1986 (modificada), modelo single speed fixa, mas prefiro roda livre nas ruas (mais pra frente pretendo montar uma (fixa) com um freio dianteiro. Apesar de não ser minha, com um quadro bem maior que meu tamanho, me dou muito bem com ela. É uma relação de cumplicidade, pode ser até engraçado, mas pra quem pedala sabe do que estou falando. Parece que a bicicleta de completa, te liberta. E sei que vou sofrer um pouco quando já tiver com a minha, do meu tamanho e do jeito que eu quero, de ter que deixar a do meu irmão de lado. A bicicleta é muito mais que um lazer pessoal ou em conjunto, a bicicleta te proporciona momentos que só pedalando você consegue sentir. Como tinha dito, a bicicleta te completa, te liberta e abre seus olhos para coisas que ainda não tinha reparado. Pedalando pela cidade é possível ver uma São Paulo mais humanizada, apesar de muitos ciclistas ainda sofrerem com o trânsito, ela te proporciona um olhar até mesmo crítico sobre as outras pessoas. Esse olhar crítico se refere ao olhar para a outra pessoa, seja ela numa bicicleta ou não, como pessoas, você começa a observá-las de uma maneira mais humana, com sentimento e responsabilidade. Dentro de um automóvel, numa maioria, esse olhar se perde, se apaga, o motorista se vê exclusivo nas ruas. Ele senta dentro do carro e ainda se comporta, ou se sente, como se estivesse em casa assistindo a um jogo de futebol. Muitos se fecham dentro das caixas de ferro/alumínio/plástico/pintura e seguem caminhos como robôs motorizados.

Com a bicicleta é possível um contato maior com espaços públicos, com o pouco verde da cidade, com outros ciclistas, com motoristas e com os pedestres. Digo isso porque muitos lugares que já passei com a bicicleta, nunca tinha passado de outra forma, e até mesmo os lugares que já passava, com a bicicleta tive outra visão. Fui descobrindo a cidade. Numa ciclovia, por exemplo, você percebe que mesmo não conhecendo ninguém, os ciclistas passam e falam com você. Um bom dia, um boa tarde, uma boa noite ou um sorriso, um aceno. Isso faz toda a diferença no seu dia. Conheci muitos ciclistas até então, gente boa! Conheci grupos de debate, grupos de integração, conheci pessoas dispostas a ajudar e a ensinar quem lhe procurar. Aprendi muito com essas pessoas, cada dia é um novo aprendizado. Não pretendo me distanciar dos assuntos que rodeiam a cidade, a mobilidade, e principalmente a ciclomobilidade. Desde que comecei a me interessar pelos assuntos de mobilidade urbana, espaços públicos, questões públicas e cicloativismo, venho percebendo como as pessoas são e estão sempre dispostas a te ajudar, também como são acolhedoras.

O Bike Zona Sul, a priori pra mim, foi apenas uma escolha para um trabalho semestral do meu curso, mas com o tempo percebi que já estava envolvida demais com os assuntos abordados pelo grupo. O Paulo sempre se mostrou disposto a ajudar na realização do trabalho, sempre conversamos sobre os assuntos que pretendia abordar no trabalho, e durante as conversas iam surgindo debates. O BZS têm temas importantes não só para grupos específicos, mas para toda a cidade. São grupos como esses que a cidade precisa, pois conseguem aproximar a maioria (população) ao poder público para a realização de futuras melhorias.

Contato: iancaloureiro@bikezonasul.org