Paulo Alves

Olá pessoal! Me chamo Paulo Alves, tenho 31 anos e sou editor do Bike Zona Sul. Bom, minha história com a bicicleta começou desde muito cedo, onde aos 3 anos lembro que já desejava pedalar em um daqueles triciclos vermelhinhos da Bandeirante, mas esse desejo só se concretizava nos triciclos de meus primos quando ia visitá-los. Assim tive que me contentar andando nos carrinhos de brinquedo grandes, quando era possível montar em cima deles (rs!), mas não eram uma febre pra pra mim. No início dos anos 90, tempo em que a Caloi e a Monark eram grandes rivais, desejava ter qualquer umas das bikes dessas marcas. Em casa havia uma Caloi 10 dourada e uma Caloi Ceci vermelha, mas eram muito grandes para mim e ainda não sabia pedalar, porém mesmo assim, me divertia indo na garupa dessas grandes magrelas da época.

Foi somente quando aos 6 anos de idade que ganhei minha primeira bicicleta: uma Caloi Berlineta azul escura metálica, que mesmo sendo usada, foi paixão à primeira vista. Passava horas limpando a pequena bike com um paninho que se enchia de ferrugem e graxa. Também ficava passando óleo na corrente, catraca e demais peças. De tanto cuidar da bicicleta acabei deixando-a quase completamente com aspecto de nova, mesmo sem ainda saber andar nela. Daí surgiu esse grande desafio: começar a pedalar. Não foi nada fácil, pois apesar da bicicleta aro 16 ser pequena, a sensação era de estar voando ou flutuando sobre a água e sempre estava me naufragando ou fazendo pousos de emergência, ou seja, caindo mesmo (rs!). Nos primeiros 2 dias, andava na bike como se ela fosse um patinete, mas já sentia o prazer do vento na cara. Foi quando em um momento inesperado, peguei mais velocidade, consegui colocar o pé no pedal e fazê-lo girar por umas 3 vezes. Um momento mágico! A partir de então, fui praticando e não consegui mais parar. Aprendi a manter o equilíbrio dando voltas no quintal, fazendo curvas e freando com o pé, pois a bike não tinha o freio regulado. Depois de algumas quedas (rs!) senti a necessidade do freio e após muita persistência, consegui regular sozinho o antigo freio ferradura da Berlineta. Já na mesma semana, comecei a pedalar dando voltas no tranquilo quarteirão de casa e pude perceber a sensação de liberdade que a bicicleta me trazia, podendo chegar rapidamente a lugares que aos poucos ia descobrindo pelo bairro. Infelizmente minha parceira já era bem usada e não durou muito tempo. O quadro quebrou ao meio e fiquei uns 3 meses sem pedalar.

Depois de um certo tempo, ganhei minha segunda bike, uma Caloicross Freestyle. Essa foi montada em casa pelo meu pai, onde escolhemos pintar na cor azul em maior parte do quadro com um toque de laranja na parte frontal e rodas de nylon brancas. Ficou show a magrela! Um diferencial foi ter 3 marchas em uma bike BMX (rs!), mas não me acostumei com o câmbio, que constantemente dava muito problema e logo troquei para uma catraca single speed. Foi com ela que explorei muitos lugares do Rio Bonito, Cidade Dutra, Interlagos, Guarapiranga e região.

Ainda em meados dos anos 90, me mudei para o Parque São Paulo no Grajaú, época onde era possível andar de bicicleta em uma pequena estradinha de terra, que seguia ao lado dos trilhos da antiga Fepasa, muito utilizada por trabalhadores que faziam desse trajeto uma “ciclovia popular”, ligando a região do Jardim IV Centenário até Parelheiros, passando pelo Jardim Icaraí, Jardim Palmares, Varginha, etc.

Nos trilhos, também era possível ver os imensos trens de carga com suas centenas de vagões levando minérios, além dos trens de passageiros que transportavam as pessoas da Estação da Luz até a Baixada Santista durante os finais de semana. Isso sem falar nos antigos trens elétricos japoneses que levavam passageiros gratuitamente do Varginha até Jurubatuba. Hoje em dia, não é mais possível pedalar por ali, pois o local foi totalmente murado e só possível ir de trem até o Terminal Grajaú, acredito eu por pura incompetência do governo FHC, que na época privatizou as linhas que aos poucos foram abandonadas, fazendo com que a população do extremo sul da cidade ficasse totalmente isolada, refém de transportes motorizados, sem ter trens metropolitanos para ir ao centro durante anos e sem ter trens de viagem para chegar ao litoral definitivamente. Mais triste ainda, foi não ter a possibilidade de utilizar a bicicleta como meio de transporte nos antigos caminhos dos trilhos, que eram o caminho mais fácil e completamente sem aclives.

No final dos anos 90, pude perceber também como a marginalidade estava crescendo na região e com isso infelizmente tive minha Caloicross furtada. Até então, ninguém da região se preocupava em trancar as bicicletas e foi na confiança que todos tinham de “poder olhar a bike de longe” que deixei ela encostada na frente da padaria do bairro, como sempre fazia todas as manhãs. Em questão de segundos que fui pagar os pães e o leite C, a bicicleta sumiu. Fiquei sem chão… Depois que a minha bicicleta foi furtada, também fiquei sabendo de muitos outros casos semelhantes, onde algumas bicicletas foram recuperadas, mas a minha Caloicross nunca mais a vi. Foi mais um desestímulo para mim e para a população, saber que bicicletas estavam sendo roubadas no bairro e, partir de então, comecei a ver só bikes trancadas em postes, mercados e padarias. Com isso, fiquei sem andar de bike por uns 2 anos.

Paulo Alves
Paulo Alves

Foi quando me mudei para o Parque Grajaú no início dos anos 2000 e tive que ir sempre para a escola à pé, do Grajaú ao Rio Bonito todos os dias, pois ir de ônibus era demorado, estressante e a lotação excessiva dos coletivos que andavam com a porta dianteira aberta, tornavam as viagens quase impossíveis. Pra uma criança de 13 anos, pagar passagem era algo inviável para ainda passar por todo esse sufoco, pois as condições não eram boas e meus pais nessa época tinham que pagar aluguel. Nessa época, já tinha uma terceira bicicleta, uma mountain-bike Sundown, que havia comprado um ano antes de me mudar, mas ela sempre ficou a maior parte do tempo encostada em casa, por conta do aumento da violência na região.

A população do Grajaú estava crescendo cada vez mais em um ritmo desenfreado e desordenado. Com isso, veio o aumento do número de carros na região, o que tornou o trânsito caótico e perigoso, o que também desestimulava as pessoas ao uso da bicicleta. Mas contra todos esses problemas, comecei a usar a bicicleta como meio de transporte para ir à escola. Como não havia a possibilidade de deixar a bicicleta na escola, deixava a bike na casa de uma tia que morava bem próximo do colégio. No começo, pedalava pelas calçadas, mas conforme o rendimento e a coragem foi aumentando, passei a usar a bicicleta somente pelas ruas, enfrentando as subidas da Av. Dona Belmira Marin e optando por trajetos mais calmos sempre que possível. Em apenas 15 ou 20 minutos conseguia ir do Grajaú ao Rio Bonito tranquilamente, contra os 50 minutos de ônibus ou 40 da lotação. De bicicleta, podia optar por vários caminhos, parar onde, quando e sempre que quisesse, podendo observar o trânsito caótico da região, sentir a liberdade de poder passar tranquilamente por todo esse trânsito, ouvir o canto dos pássaros no Parque das Árvores, além de contemplar a cidade em suas diversas formas, tons e cheiros… Era maravilhoso contar aos amigos como podia chegar antes deles, mesmo eles estando em veículos motorizados. Isso estimulou outros alunos a também ir de bicicleta para a escola. E assim foi durante 2 anos.

Desde então, a paixão pela bicicleta só tem aumentado! Algumas outras parceiras de pedal também tive, que sempre foram bicicletas simples, onde durante todos esses anos, nunca me deixaram na mão e me orgulho em dizer que nunca caí seriamente de bicicleta, pois sempre fui prudente. No máximo, só “comprei terreno” em quedinhas bobas, que sempre são as mais engraçadas (aquelas que você cai quando está montando na bike ou quando vai sair com ela e erra o pedal rs!). Afinal de bicicleta (na esmagadora maioria das vezes), no máximo você poderá sofrer alguns arranhões, pois elas não causam graves acidentes e dificilmente você irá ouvir falar que uma bike desgovernada matou 5 pessoas num ponto de ônibus. Já um veículo motorizado, qualquer descuido pode ser fatal…

Depois de muitos anos usando a bicicleta como meio de transporte, resolvi compartilhar essas experiências sobre o que vejo pelas ruas da cidade, através da página Bike Zona Sul. Com isso, muitos amigos de pedal pude conhecer e perceber que juntos podemos incentivar o uso da bicicleta na região, através de passeios e pedais noturnos, que ajudam bastante para que as pessoas dêem o primeiro passo para usar a bike no dia-a-dia, afinal, tudo o que é bom precisa ser compartilhado com todos. Fico muito feliz toda vez que ouço falar que alguém está começando a pedalar, pois vejo isso como o início de uma mudança de cultura em nosso país.

Bicicleta é saúde, liberdade, praticidade, segurança, superação, felicidade e muitas outras qualidades, onde até mesmo suas poucas dificuldades, que alguns consideram empecilhos, são contornáveis. A bike não só traz benefícios para a pessoa que a usa, mas também para cidade como um todo, melhorando o trânsito, diminuindo o número de acidentes, filas em hospitais com menos pessoas doentes, diminuição na superlotação do transporte público e até mesmo diminuindo os níveis de violência (sim, verdade), tornando a cidade mais humana e mais legal de se viver. Experimente você também essa ferramenta de humanização que irá mudar a sua vida.

Contato: bikezonasul@gmail.com

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